Olhos de cão, coração de gente.
O cachorro, outrora de rua, jamais compreendera essa frase, tão dita para ele.
Viveu nas ruas por um tempo, que não sabia precisar.
Pode classificar aqueles momentos como intensos. Sentiu a liberdade do vento nas suas orelhas enquanto corria e garrafas voando na sua direção. Sentiu fome, medo, frio, dor. Mas também, nunca saboreou um jantar tão delicioso quanto banha choca (após dias de fome), nunca correu tanto atrás daquelas máquinas grandes metálicas e motorizadas e nunca sentiu tamanho vazio interior quanto nas noites de chuva, em que lembrava de seus irmãos filhotes e da delícia, que um dia fora, mamar nas tetas de sua mãe.
Apesar de tudo, seguia em frente.
Vislumbrava um dia melhor. Acreditava na humanidade. Alguns humanos lhe davam comida e água, não ficavam com ele, porém. Com certeza, tinham seus motivos.
Num dia 20 de dezembro a coceira era imensa (aquela sarna horrível!) e o cão se coçava demais, próximo de uma carroça de cachorro-quente. O dono era seu amigo. Antes de fechara a carroça sempre ganhava suas salsichas premiadas.
Acontece que aquele coça-coça estava incomodando a clientela que não titubeou em reclamar. O dono vociferou com o cão que não entendeu muito bem, não tinha revirado o lixo aquele dia para o dono ficar tão bravo (aconteceu algumas vezes ele descobriu que aquilo deixava os humanos irados).
O dono da carrocinha, já sem paciência, chutou forte o cachorro que, por ser pequeno, num salto vai para longe, ganindo. Aos aplausos de uns e sob olhares de reprovação de outros.
Com muita dor o cão segue seu caminho, sem rumo.A dor vai desde sua coxa direita até sua confiança nos seres humanos. Pequeno, cheio de carrapatos, pulgas e sarnento. Agora com muita dor no coração. Pensou em todos os humanos que havia confiado até o dia em questão e por tudo o que passara por se submeter à vida ao lado deles. Auto-comiseração era a palavra certa para o que sentiu, dias se passaram sem que o cão sentisse vontade de viver, num calor indescritível.
Ele pensa, reflete e, depois de perder as esperanças sentir-se completamente só no universo resolve atravessar a faixa.
O cão já não tinha mais medo do pior.
"Mas veja que tragicomédia!Que humanos sarcásticos!"-pensou o cão.
Justo quando ele toma aquela decisão as potentes máquinas de metal desviam do pequeno ser.
Todos o vêem ali. Desviam dele. E ninguém faz nada.
Um ser invisível.
Perdido.
Só.
Um carro para e alguém agarra o pequeno cão. já cansado, desnutrido e descrente.
De alguma maneira, por algum motivo o olhar do cão cruzou com o dos humanos e eles entenderam que suas vidas já estavam modificadas e entrelaçadas.
O cão entregou-se fielmente, sem duvidar àquele gesto de recolhimento e olhava para os humanos pedindo socorro.
Incrível!
Um gesto e ele voltou a crer naqueles seres. Foi algo mais forte que o cão, mas aquilo dava vontade de viver.
Daquele dia em diante tomou para si a máxima: existe, sim, humano a quem vale a pena ser fiel.
E, desde então, ele "usa sempre o mesmo terno".
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