sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cardiomegalia

Ela nasceu de parto natural, nos lençóis de sua casa. Foi socorrida às pressas, logo após sua passagem pelo canal vaginal, porque "deus me livre", imagina todos os germes que poderia pegar em casa.
Foi ao hospital (aquele local onde todos os contaminados vão para se curar). No caso desse bebê, em especial, foi importante essa ida (não que de outra maneira não descobririam isso). O caso é que, na internação, descobriram seu defeito congênito: cardiomegalia.
Entraria para fila de transplantes, ou viveria muito pouco e à base de muitas cirurgias.
Aos quinze anos, ainda se percebia diferente dos outros. Enquanto todos os colegas de classe envolviam-se em romances, ela somente preocupava-se em viver (não sobreviver). Não entendia como viver amando somente uma pessoa a vida inteira., então aqueles rituais tornavam-se inúteis àquela menina. Como poderia ela colocar todas suas angústias, ansiedades, frustrações, alegrias e emoções numa única pessoa? Era responsabilidade demais. Amava a todos. Integralmente.
Em certo ponto de sua vida, decidiu que o mundo era quem estava errado, e não ela e seu grande coração.
Já não faria a cirurgia.
E, se por ventura, viesse a falecer, não seria por um coração tão imenso, mas sim pela pequeneza de seu corpo que não foi capaz de suportar tamanho amor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário