sábado, 17 de janeiro de 2015

A menina

A menina olhava para o jogo de futebol no recreio e sentia-se desanimada.
Tinha só nove anos e já sabia o que lhe fazia mal. As outras crianças, por exemplo, estudaria em casa.
No entanto, de acordo com seu pai, se ela não frequentasse o colégio, ele não poderia ficar com ela. Até que não seria tão ruim não ter pai. Imagina só: comer muito chocolate, ficar jogando no computador até de madrugada e não teria de ir à escola.
Sinceramente falando, porém, a única pessoa que ela amava era seu pai (não conhecera sua mãe).
Mais um rito se acaba. Após o recreio, tarefas, copiar tema de casa, ir para casa, fazer tema de casa e dormir.
Sem mencionar os ritos afetivos: conversas à mesa, beijo de boa noite.
Só tem nove anos e cansou-se dos ritos, tarefas, pessoas.
Quando iniciou outro dia de aula, numa sema qualquer aconteceu "A" mudança.
Essa criança entediada e acostumada com a vida encantou-se!
A menina viu dois gatos do pátio do lado do colégio, miando de maneira agressiva e, de uma maneira bruta e incrível, um se sobrepôs ao outro.
Ela se animou com o que viu, sentiu, ao mesmo tempo, uma angústia tomar-lhe o ar.Um misto de compreensão e repulsa fez a criança refletir e decidiu contar o que viu ao seu pai, que deveria ter uma explicação para o fato.
Ele explicou objetivamente a cópula. Ela entendeu, porém, só aquela explicação não a satisfez.
Por fim, ele disse que era da natureza dos animais.
Com essa teoria, essa sossegou um pouco.
Mal se passaram duas horas e ela se imaginou agredindo e sendo agredida, sendo essa a natureza animal.
Pediu para seu pai para levá-la para tomar um sorvete, isso sempre a animava.
Enquanto aguardavam, dentro do carro, o semáforo abrir para eles, um jovem pediu dinheiro ao pai da garotinha.
O rapaz tinha aparência suja, cheirava mal. O pai disse que dinheiro não daria, pois sabia que o guri gastaria com drogas.
A menina lembrou da vez que ganhou uma caixa de chocolates e deu para professora. Achou injusto o rapaz não poder gastar no que quer que quisesse, sendo o dinheiro dado a ele...
Naquele exato segundo, ela deu-se conta que a vida é cheia de momentos de cópula, porém, ela também percebeu que não gosta disso.
Será que sempre deve haver competitividade, agressividade para alguns poucos alcançarem um objetivo?
Acontece assim hoje.
Mas ela fará acontecer diferente amanhã.
E aquele sorvete de creme tinha um gosto surpreendente de vontade de mudar o mundo.
E ela só tinha nove anos.



Labirinto da Lança

Era mais um dia comum e festivo para a população humaniense.
O dia do labirinto da lança, onde um touro é solto num labirinto, enquanto os humanienses se divertem jogando lanças no animal. O clímax se dá quando o bicho chega ao final do labirinto cheio de lanças, sangue e vitória, pronto para o abate.
A carne que essa população anseia.
O touro foi colocado na porta do labirinto, sem entender muita coisa, porém, ao sentir a primeira lança no seu couro, sabia que o caminho era avante.
A princípio sentia medo, entretanto, aos poucos, o sentimento de raiva tomou conta do seu ser.
Afinal, que mal havia feito àqueles seres?
Porque o estavam perseguindo?
Não encontrando lógica nos questionamentos e percebendo que ao final morreria (todos morrem, acontece que aquele seria seu dia) resolveu ir contra os lanceiros. Na realidade contra os muros do labirinto. Sangrava, sujava os muros do labirinto, assustava os seres humanienses (que continuavam a atacá-lo).
E o bicho revidava e continuava seu percurso em direção ao fim. Imaginava que se corresse muito poderia morrer em paz.
Os humanienses acharam aquele bicho muito agressivo, comentavam que precisariam repintar o labirinto por dentro, por conta de sujeira feita pelo animal.
Enquanto isso, a vida banal do touro ia se esvaindo, ele se agarrava com todas as forças nela.
Acreditava que algo aconteceria.
O fazendeiro iria lhe buscar, foi um engano o acontecido.
Seus devaneios foram interrompidos quando ele se percebeu com cerca de duas dúzias de lanças no couro e uma dor lancinante percorrendo sua espinha.
Não acabara o labirinto, mas findava sua vida.
Um garotinho de nove anos, auxiliado pelo seu pai, cravou-lhe a última lança.
E tudo é festa!
Mais cerveja!
Coloca carvão para assar o animal!
A festa só está começando!
Casados há 10 anos e quase nenhuma briga.
Nenhuma discussão.
Ambos calmos, pacíficos.
Os amigos, por vezes, com inveja, cogitavam a hipótese do relacionamento ter ficado insosso, conquanto o casal concordava que, desde o início, o relacionamento fora calmo.
Não cogitavam refletir muito. Sentiam-se satisfeitos e isso, por si só, bastava.
Enquanto não incomodar, tudo estará bem.
No dia vinte e três de abril, ele tomou café e o gosto foi amargo.
Ele  já não era um, não existia como um, ele por ele mesmo.Mas sim, o casal. Os dois formavam uma unidade. Um só gosto, uma só vontade.
O insight deu vazão ao desespero. A partir de agora, ele terá que decidir, afinal sua vida está mudada.
Dia maldito este, que ele esqueceu de colocar açúcar no café.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cusco

Olhos de cão, coração de gente.
O cachorro, outrora de rua, jamais compreendera essa frase, tão dita para ele.
Viveu nas ruas por um tempo, que não sabia precisar.
Pode classificar aqueles momentos como intensos. Sentiu a liberdade do vento nas suas orelhas enquanto corria e garrafas voando na sua direção. Sentiu fome, medo, frio, dor. Mas também, nunca saboreou um jantar tão delicioso quanto banha choca (após dias de fome), nunca correu tanto atrás daquelas máquinas grandes metálicas e motorizadas e nunca sentiu tamanho vazio interior quanto nas noites de chuva, em que lembrava de seus irmãos filhotes e da delícia, que um dia fora, mamar nas tetas de sua mãe.
Apesar de tudo, seguia em frente.
Vislumbrava um dia melhor. Acreditava na humanidade. Alguns humanos lhe davam comida e água, não ficavam com ele, porém. Com certeza, tinham seus motivos.
Num dia 20 de dezembro a coceira era imensa (aquela sarna horrível!) e o cão se coçava demais, próximo de uma carroça de cachorro-quente. O dono era seu amigo. Antes de fechara a carroça sempre ganhava suas salsichas premiadas.
Acontece que aquele coça-coça estava incomodando a clientela que não titubeou em reclamar. O dono vociferou com o cão que não entendeu muito bem, não tinha revirado o lixo aquele dia para o dono ficar tão bravo (aconteceu algumas vezes ele descobriu que aquilo deixava os humanos irados).
O dono da carrocinha, já sem paciência, chutou forte o cachorro que, por ser pequeno, num salto vai para longe, ganindo. Aos aplausos de uns e sob olhares de reprovação de outros.
Com muita dor o cão segue seu caminho, sem rumo.A dor vai desde sua coxa direita até sua confiança nos seres humanos. Pequeno, cheio de carrapatos, pulgas e sarnento. Agora com muita dor no coração. Pensou em todos os humanos que havia confiado até o dia em questão e por tudo o que passara por se submeter à vida ao lado deles. Auto-comiseração era a palavra certa para o que sentiu, dias se passaram sem que o cão sentisse vontade de viver, num calor indescritível.
Ele pensa, reflete e, depois de perder as esperanças sentir-se completamente só no universo resolve atravessar a faixa.
O cão já não tinha mais medo do pior.
"Mas veja que tragicomédia!Que humanos sarcásticos!"-pensou o cão.
Justo quando ele toma aquela decisão as potentes máquinas de metal desviam do pequeno ser.
Todos o vêem ali. Desviam dele. E ninguém faz nada.
Um ser invisível.
Perdido.
Só.
Um carro para e alguém agarra o pequeno cão. já cansado, desnutrido e descrente.
De alguma maneira, por algum motivo o olhar do cão cruzou com o dos humanos e eles entenderam que suas vidas já estavam modificadas e entrelaçadas.
O cão entregou-se fielmente, sem duvidar àquele gesto de recolhimento e olhava para os humanos pedindo socorro.
Incrível!
Um gesto e ele voltou a crer naqueles seres. Foi algo mais forte que o cão, mas aquilo dava vontade de viver.
Daquele dia em diante tomou para si a máxima: existe, sim, humano a quem vale a pena ser fiel.

E, desde então, ele "usa sempre o mesmo terno".

Cardiomegalia

Ela nasceu de parto natural, nos lençóis de sua casa. Foi socorrida às pressas, logo após sua passagem pelo canal vaginal, porque "deus me livre", imagina todos os germes que poderia pegar em casa.
Foi ao hospital (aquele local onde todos os contaminados vão para se curar). No caso desse bebê, em especial, foi importante essa ida (não que de outra maneira não descobririam isso). O caso é que, na internação, descobriram seu defeito congênito: cardiomegalia.
Entraria para fila de transplantes, ou viveria muito pouco e à base de muitas cirurgias.
Aos quinze anos, ainda se percebia diferente dos outros. Enquanto todos os colegas de classe envolviam-se em romances, ela somente preocupava-se em viver (não sobreviver). Não entendia como viver amando somente uma pessoa a vida inteira., então aqueles rituais tornavam-se inúteis àquela menina. Como poderia ela colocar todas suas angústias, ansiedades, frustrações, alegrias e emoções numa única pessoa? Era responsabilidade demais. Amava a todos. Integralmente.
Em certo ponto de sua vida, decidiu que o mundo era quem estava errado, e não ela e seu grande coração.
Já não faria a cirurgia.
E, se por ventura, viesse a falecer, não seria por um coração tão imenso, mas sim pela pequeneza de seu corpo que não foi capaz de suportar tamanho amor.

Esfinge

Sou o país ao contrário
O inverso do errado
A esquerda colorida
A flor que cresce da lama
Sou tudo, sou pouco
Indefinível, indecifrável
Sou palavras, tinta de caneta
Sou signo
Interrogação

Meu sangue doce
Repugnante!
Deixa marcas pelo meu corpo.
Enquanto as pulgas e os mosquitos fazem a festa!